Olhou o celular, nenhuma mensagem, nenhum remorso. Guardou o celular no bolso e arrumou a mochila nas costas segurando pelas alças, a cabeça teimando em pensar nela, balançou a cabeça de um lado para o outro e depois girou ela estralando o pescoço. Teria que viajar por quase trinta horas e ficar todo esse tempo remoendo isso iria deixá-lo maluco. Cortou a fila de pessoas que esperava ao lado do ônibus leito para pôr as malas no bagageiro, ouviu de fundo pessoas conversando e espanhol enquanto se dirigia para o motorista que estava parado na porta do ônibus. “Que saudade de ouvir pessoas falando português, ou pelo menos conversar em português com alguém.” Parou de frente ao motorista que era um senhor de idade avançada, tinha traços indígenas local com alguns fios brancos começando a aparece no couro cabeludo, tinha um óculos escuro espelhado no topo da cabeça e era magro, ao contrário do outro motorista, que revezaria na viagem com ele, que era mais gordo e tinha mais cara de europeu. Se aproximou lentamente do motorista que mascava um chiclete de boca aberta, mania que o irritava demais. - Sus documentos y pase, por favor – disse de maneira automática enquanto o olhava de cima abaixo. Puxou a mochila e pegou todos os documentos, a passagem e a entregou ao homem que passou um tempo dando uma lida em tudo. - Brasileño? - Perguntou ele ainda mastigando o chiclete sem desviar o olhar . - Si si – Sorriu tentando demonstra - Brasil muy hermoso – Sorriu de volta o motorista enquanto rasgava a passagem de devolvia - Si muy Hermoso – Tentou falar em espanhol, mas o jeito correto de responder o fugiu da cabeça e pode até perceber um sorriso irônico surgindo no rosto do senhor. Após dar uma olhada em tudo, saiu da frente da porta to ônibus abrindo espaço para que ele pudesse entrar e subir a escada, subiu com a mochila nas costas, assim que virou para o corredor ele deu uma olhada de leve nas pessoas já sentadas, olhou para o bilhete e olhou qual poltrona era a dele, tinha chegado atrasado na rodoviária e só tinha conseguido pegar corredor, já estava pronto para sentar ao lado de um hippie fedendo a coca quando avistou que na poltrona ao lado da que seria o lugar que pertenceria a ele nas próximas trinta horas estava ocupado por uma moça. Seu rosto era de traços finos, quase como se tivesse sido feita a mão, nariz pequeno, bochecha com algumas sardas saltando no topo da bochecha, os olhos negros como a noite encarava um livro que ele não conseguia ler a capa, os cabelos castanhos caia pelas costas o impedindo de ver o real tamanho dele. Quando parou ao lado dela e tirou a mochila a colocando no bagageiro acima da poltrona ela levantou os olhos e o encarou com um misto de alivio e de curiosidade. Tinha a certeza de que ela não era Chilena, talvez Europeu? Americana? Não sabia responder. Terminou de arrumar a mochila e puxou seu iPod da mochila com os fones de ouvidos, queria ter comprado um headset, mas achava muito tosco usar headset com iPod então comprara um fone Intra-auricular mesmo. Quando passava o fone por debaixo da blusa e os deixava pendurados na gola ela desviou o olhar dele e voltou para o livro, mas ele conseguia reparar nela o olhando de canto de olho e isso o deixava extremamente nervoso. Por fim se sentou e ajeitou-se na poltrona, olhou para trás e puxou a poltrona um pouco para baixo na altura que a companheira de viagem dele tinha abaixado, ajeitou as costas e deixou escapar um suspiro. - Essa viagem vai ser um saco – Disse baixo enquanto passava a mão no cabelo. A menina ao lado tomara um susto tão grande que tinha deixado o livro se fechar sem marcar a página, ela virou para ele sem conseguir esconder a cara de surpresa e nos lábios um sorriso. - É bem verdade o que dizem - ...espera ai ela estava falando português ou ele que estava ficando maluco? - Você encontra Brasileiro em todo lugar do mundo, até em lata de lixo. Ele ficou um tempo hipnotizado pela voz doce dela falando português, havia passado algumas semanas em Santiago e depois mais algumas semanas andando pelo deserto do Atacama e ouvir alguém falando uma língua que ele dominava (quase que) completamente o fez se sentir quase em casa naquela ônibus quase cheio. Ficou um tempo pensando em como responder e devolvendo o sorriso no rosto respondeu. - Nossa muito obrigado – os dois riram baixo, a risada dela era uma das coisas mais adoráveis que ele já havia escutado – Caralho como é bom ouvir alguém que fala português. - Primeira vez fora do Brasil? - Ela apoiou o livro no colo, aprendera com o tempo que aquele era um sinal de que a pessoa estava interessada em conversar, ele acenou levemente com a cabeça – Nossa imagino sua cabeça como tá, eu quase surtei na primeira vez que fui pra Argentina e fiquei dois meses lá – o olhar dela ficou distante enquanto ela mergulhava no próprio passado e ele aproveitou para olhá-la mais de perto. Os olhos eram bem negros, “like black holes in the sky” completou a mente dele pensando em Shine on You crazy Diamond, as unhas grandes junto com uma mão pequena estavam pintadas de preto, usava uma regata branca com uma jaqueta por cima a protegendo do ar-condicionado junto com uma calça jeans e embaixo do banco ele pode ver a alça de uma bolsa. Me sentia até mal de usar apenas uma blusa, jeans e um sapato velho, sem contar que o cabelo preto precisava de um corte – Na última semana encontrei um brasileiro e quase me taquei nele – ela sorriu levemente pela lembrança e os olhos logo foram ganhando foco quando ela se rastejou para fora das lembranças. - Bela camiseta de Evangelion, comprou aqui? Estava tão ocupado prestando atenção no jeito doce como ela falava que tomou um susto quando ela apontou para a camiseta que estava usando. - Ah.....Você gosta de Eva? - “Que pergunta imbecil, lógico que ela gosta senão não teria perguntado seu idiota” -...N-não comprei no Brasil mesmo. - Gosto, não sou viciada, mas me fez repensar algumas coisas quando assisti – Ela colocou a mão no queixo para pensar – Gosto muito da Misato e da Asuka. - Eu não gosto muito da Asuka. - Seu herege – Disse ela fechando a cara e depois dando uma risada – Gosta da Rei então correto? - Ele acenou a cabeça positivamente – SABIA. Os dois riram, não que aquilo tivesse sido realmente tão engraçado, mas ela acabou falando um pouco alto e alguns Chilenos levantara a cabeça para encarar aquele povo estranho falando outra língua, ela levantou a mão num pedido de desculpas enquanto a outra tampava a frente do rosto enquanto ria. Depois ficaram naquele silêncio constrangedor onde ficam as duas pessoas ainda soltando breves risadinhas e sem saber o que falar. Ela foi quem quebrou o silêncio. - Estou muito feliz que meu companheiro de viagem seja você – Aquele sorriso no rosto dela seria o sorriso sincero dela? Talvez, ela não parecia mentir, até porque não havia motivo para isso – fiquei com medo de um hippie sujo e tarado sentar do meu lado sabe? - É entendo perfeitamente o medo, tive isso na vinda, mas consegui escapar e tive agora. – esfregou as mãos uma na outra enquanto observava o motorista subir e fazer a contagem de passageiros – já deu esse azar? - Graças a deus não, mas na vinda teve uma hippie que vomitou a escada inteira – O aviso para colocar o cinto se acendeu e foi isso que os dois fizeram enquanto ele ria imaginando a cena – Não ria foi nojento poxa e posso te pedir um favor? - Claro. - Dormi mal noite passada – Ela colocou uma mão sobre o ventre num sinal que ele entendeu muito bem, crescera numa família com uma irmã mais velha que sofria muito com cólica – então ia pedir pra você ficar de olho nas minhas coisas enquanto tiro um cochilo. - Lógico, pode dormir tranquila ok? - E tentou dar o sorriso mais calmo que conseguia enquanto ela colocava o livro preso nas costas do banco da frente, “O Retrato de Dorian Gay” conseguiu finalmente ler na capa surrada do livro e se ajeitou no banco com uma expressão de alivio no rosto - Tá melhor? - Sim sim – O ônibus deu partida e começou a dar ré saindo da rodoviária - Obrigada por ficar de olho e se preocupar, aliás qual seu nome? - Não é nada sério e Eduardo - Eu sou Ana – Ela se virou para a janela para olhar o deserto – Você é um cara legal. Ele ficou muito feliz dela ter virado para o outro lado pois assim nem virá que ele havia corado quando ela falou isso, ficou esperando para ver se ela falava mais alguma coisa, mas passado uns dez minutos quando já estavam na estrada a respiração dela mudará. Havia entrado em sono profundo, ele então colocou os fones no ouvido e colocou alguma música aleatória para tocar. Quando acordou, ele estava com o braço esquerdo sobre a barriga e o direito no queixo apoiando o cotovelo nele, o aleatório havia enviado Last Flowers to the Hospital do Radiohead e como sua mãe gostava de dizer, ele se afundará nas próprias lembranças. Ela então tocará seu braço, o susto foi tanto que ele não conseguirá nem esconder o susto, estava tão fundo no passado que até esquecerá onde estava e principalmente de que havia alguém ao lado dele. - Desculpa – Disse ela com a voz ainda sonolenta, quando ele tirou o fone e virou-se para ela – não queria te assustar. - Não foi sua culpa – Desligou o iPod e voltou a guarda-lo no bolso enquanto colocava os fones de volta pendurados na gola da camisa – estava perdido nos meus pensamentos mesmo. - Você tá bem? - O rosto dela demonstrava uma ligeira preocupação – tava com a cara um pouco séria, diria até que triste. - Tava lembrando de uma pessoa. - Uma menina? - Sim – Desviou o olhar dela e ficou olhando para as próprias pernas enquanto tentava esticá-las, estavam quase dormente pelo tempo que ele já passara sentado e ainda não tinha passado um quarto da viagem – Ela era minha namorada, terminou comigo ontem. - Passei pela mesma situação faz pouco tempo também – Ele então voltou a olhar para ela, mas ela agora voltará a olhar para o lado de fora – Só que no caso fui eu que terminei com ele. - Então é menos pior para você não? Ela olhou para ele com curiosidade e balançou a cabeça negativamente. - Não é fácil machucar o coração de alguém, ainda mais de alguém que você amou. - Soltou um suspiro – é até mais fácil para o outro lado acho, sair como vilã da história é o pior e você nem pode demonstrar que está triste com o fim sabe? É estranho. - Nunca tinha pensado por esse lado – Coçou o queixo lentamente raspando a unha no pouco de barba que crescia – terminaram por quê? - Não dava muito certo sabe? - Ele sabia – ele era uma pessoa muito grudenta e isso me sufocava demais. - Acho que nunca vou entender as mulheres – Deu um sorriso irônico que carregava muita verdade – Se o cara é indiferente não dá certo, se ele for muito grudento também não. - Você não entende muito as mulheres né? - Ele concordou com a cabeça e Ana deu um sorriso baixo – Vou te dar uma dica então sobre as mulheres, você nunca parou para pensar porque mulheres preferem gatos a cachorro em sua maioria? - Ele negou com a cabeça e ela se ajeitou no banco – Gatos e cachorros são muito parecidos em sua essência, os dois pedem carinho, os dois pedem comida, abanam o rabo quando você chega em casa cansada do trabalho, mas tem uma diferença enorme que muitas pessoas criticam nos gatos – Olhou profundamente nos olhos dele, os olhos negros dela eram de uma beleza única – eles são independentes, eles gostam de você, gostam da sua companhia, gostam do seu carinho, mas eles não ficam vinte e quatro horas grudado na sua perna babando igual um cachorro, eles tem o espaço e a vida deles. Ficou um silêncio enquanto ele pensava no que ela acabará de dizer e ela virou de volta a olhar a paisagem. - Gosto muito do Chile – começou ela quebrando o silêncio – principalmente do ar rural que tem quando tivermos perto de Santiago, me lembra minha infância quando meu pai me levava ao sítio e passávamos o dia inteiro – o silêncio voltará enquanto ela se afundava em lembranças – Mas não vamos falar disso. Dormi por muito tempo? - Umas três horas acho. - Então ainda temos muita viagem pela frente – Então Ana puxou o livro do banco da frente e sorriu para ele – Se incomoda se eu ler? Tenho que terminar para um projeto de faculdade. - Nem um pouco. E assim passaram mais algum tempo. Um tempo depois ela fechou o livro, virou a cabeça de um lado ao outro estalando o pescoço, projetou as costas para frente e com o canto do olho ele olhou para o formato do seios dela na blusa. - Ler com o ônibus andando me dá dor de cabeça depois de um tempo – Disse se ajeitando no banco deixando o livro apoiado nas pernas. - Acontece comigo também – Voltou a tirar os fones do ouvido. - Nossa eu sou muito chata, só atrapalho sua música Ele corou levemente e soltou um sorriso nervoso. - Que isso, sério, adorando conversar com você – Não conseguiu dizer isso olhando para ela – Achei que a viagem seria chata e teria um hippie fedido do meu lado e até agora tudo ao contrário. - Nossa me chamou de cheirosa. Obrigada – Ele corou mais, ela percebendo isso riu baixo, deitou no banco apoiando a cabeça no braço e voltou a olhar para fora e falou quase que num sussurro – Você é um cara legal Eduardo. - V-você que é legal sério – Tentou disfarçar o nervosismo, falhou miseravelmente – e me chame de Edu, parece minha mãe quando ficava brava comigo. - Ok então – Olhou para ele com um sorriso de deboche no rosto – Edu, pode me chamar de Ana se preferir. - Haha que engraçado. - Sim eu sou – Sorriu de orelha a orelha fechando os olhos o que a fez ficar mais fofa ainda e então voltou a atenção ao lado de fora. Ela ficou um tempo quieta e com o tempo que vivera com sua mãe e irmã sabia que quando uma mulher ficava quieta de repente era melhor deixá-la sozinha, mas nem colocou o fone, ficou um tempo também olhando a paisagem, do lado esquerdo ficava o deserto do Atacama e logo a direita ficava a praia do Pacifico formando um cenário extremamente raro e de uma beleza única. Teria algum outro lugar do mundo esse cenário? Achava que não. Mas logo se deixou afundar nos próprios pensamentos, já havia passado umas horas desde que ele embarcará naquele ônibus, mas só de estar ao lado dela o tempo parecia passar mais rápido, seja com ela dormindo ou observando ela lendo atenta com o canto de olho e principalmente quando conversava com ela. Se pegou pensando no que ela havia lhe dito agora a pouco e era nisso que filosofava quando Ana voltou a quebrar o silêncio. - Esqueci de te perguntar antes se você vai descer em Santiago ou descer para Chillan? - Vou descer até Chillan e de lá pego um táxi pra Termas de Chillan Ela sorriu levemente, parecia estar mais aliviada. - É eu também, hotel ou cabanas? - Tem Cabanas lá? Fiz reserva no hotel mesmo. - Sim tem, algumas bem bonitas até – Ela ficou em silêncio por um tempo como se pensasse bem no que falaria e virou o rosto de novo ficando bem próximo do dele, com os olhos negros encarando os dele. - Mas o hotel também é lindo, fica do lado da estação de esqui e tem cassino, piscina aquecido e outras frescuras. Gosto de ir passear lá dentro. - Nunca fui num Cassino - “Que comentário mais idiota” pensou automaticamente. - Nem eu, não gosto muito. O silêncio ficou ali um tempo pairando como um fantasma, ele abriu a boca para falar algo ao mesmo tempo que ela, pararam, olharam um para o outro e riram. - Pode falar – Ela falou se inclinando de novo para guardar o livro na bolsa. - Não ia falar nada de importante sério, o que você ia dizer? - Ia perguntar se você já tinha visto neve - Nunca, por isso que estou indo pra Chillan. - E porque primeiro ir pro Deserto? - Não sei – Realmente não fazia ideia do que porque tinha ido pro Deserto do Atacama – acho que pra ver os dois opostos da natureza. - Entendo – A expressão dela ficou mais séria – Se me permite perguntar, por que sua ex não veio? - Ela ia vir, mas culminou de a faculdade dela ficar puxada nessa época e ela preferiu ficar. - Entendi, desculpa tocar nesse assunto. - Sem problemas. Então ela parou de falar de novo e ficou com uma expressão pensativa, como se calculasse perfeitamente o que ia falar. – Essa viagem eu faria com meu ex – Começou com um tom seco - a gente tinha a ideia de fazer essa viagem fazia muito tempo, ele já conhecia o Chile e ia me mostrar um monte de lugares tanto em Santiago quanto do próprio Chile, mas ai terminamos, ou melhor eu terminei com ele, faltando uma semana para a viagem. Ele desistiu de vir e conseguiu recuperar o dinheiro da passagem e deixou o dinheiro que já tinha investido na cabana e nos hotéis como presente. - Sinto muito - Não tem o que você sentir disso tudo Edu, são coisas que acontecem na vida. Não podemos ter o controle de tudo. – Deu de ombros pontuando o que tinha dito e virou de novo só que dessa vez deitando mais encolhida. - Agora é você que parece triste. - Só um pouco, mas logo passa. – A voz dela estava meio enrolada. “Ela deve estar chorando, ela virou o rosto para o outro lado para você não ver idiota” Ele não soube o que falar, ficou um tempo remoendo o que fazer, “idiota, idiota” repetia seu cérebro em looping e então tomando muita coragem e com a mão tremendo ele tocou o ombro dela, mesmo tocando por cima da blusa dava para sentir o quão macia a pele dela era e “esfregou” o ombro dela lentamente numa tentativa de carinho. - Fica assim não Ana, você não merece. Ela não respondeu nada, mas ele conseguiu notar pela bochecha dela que havia dado um leve sorriso. “Poderia ter falado algo seu idiota” pensou enquanto se ajeitava na poltrona e olhava para qualquer ponto fixo, colocou o fone somente de um lado para que pudesse ouvir caso ela falasse algo e ficou em silêncio por um tempo ouvindo música. Devia ter passado uns quinze minutos, tempo dele ouvir três músicas, quando ela falou. - Quer almoçar? - Olhou para ele, os olhos não denunciavam nada, mas a maquiagem um pouco berrado na altura dos olhos falava por si só – você trouxe algo para comer? - Lógico, não aguentaria ficar trinta horas sem comer nunca - Muito menos eu – Ele abaixou para mexer na bolsa – o que você trouxe? - Três sanduíches e duas latas de coca-cola que devem estar quentes pra caralho – Ele pegou a mochila e puxou um dos sanduíches envolto de papel-alumínio e uma das latas de coca – e você? - Quase isso – Disse ela tirando o sanduiche enrolado em papel toalha e uma latinha de Schweppes. - Nunca tomei é boa? - Meu refrigerante favorito – Abriu a lata e ofereceu para ela – Prova - Não precisa - Precisa - Eu não quero sério - Por favor - Muito obrigado mas não precisa - Vai logo - Ok eu tomo – tomou as latas da mão dela e bebeu dois goles pequenos – Nossa é bom mesmo - Não disse – Desenrolou o sanduíche com uma delicadeza única e pegou a lata e volta – você nunca deveria duvidar de mim - Mas em nenhum momento eu duvidei - Sei – Sorriu e começou a comer lentamente em silêncio. Comeram em silêncio, ela comia com uma calma e uma delicadeza que ele jamais vira na vida, parecia coisa de filme de época, ele até tentara se controlar o máximo para não passar vergonha perto dela comendo, ofereceu a lata de coca para ela que negou levemente com o dedo enquanto tampava a boca e mastigava. - Coca quente é horrivel. - Eu até que gosto - Você tem mau gosto então - Eu gostei do seu refrigerante - Uma breve iluminação de bom gosto – Então deu uma breve piscadinha e voltou a comer. O coração dele demorou longos minutos para se recuperar. Terminaram de comer e perderam um tempo limpando a boca, as mãos e colocaram o lixo numa sacola que a Ana tirou da bolsa, mulheres sempre estavam preparadas para (quase) tudo. Não conversaram, ficaram um tempo em silêncio e o sono começara a bater em Eduardo, ele guardou o Ipod no bolso e se ajeitou no banco com os olhos fechados, pode escutar Ana puxando o livro do banco da frente e voltando a ler em silêncio. Dormiu mais rápido do que esperava. Teve o mesmo sonho que andava tendo nos últimos dias, estava perdido e sozinho no meio do deserto do Atacama, gritava por ajuda, chamava pelos pais, pela irmã, pelos amigos, pelas ex-namoradas e nada. Então andava até as pernas não aguentarem mais e por fim acabava caindo desfalecido na areia enquanto esperava a morte chegar. Acordou suando frio, mas felizmente sem gritar, não queria preocupar a Ana. Se espreguiçou no banco e abriu os olhos lentamente, o sol estava quase se pondo e Ana agora lia um livro diferente, agora lia Dom Casmurro. - Caralho eu dormi muito? - Tempo suficiente para terminar Dorian Gay – Disse ela sem tirar os olhos do livro – Você até roncou cara, tava cansado mesmo. - Um pouco, a cama do lugar que fiquei não era muito confortável sabe? - Fale isso pra quem tem peitos – Ele corou lentamente quando ela falou dos próprios peitos. - Não tinha pensado por esse lado - É já imaginava – E fechou o livro marcando a página com a capa do livro – o motorista vai parar numa lojinha, mas não sei se vou querer descer por muito tempo, o local é meio sombrio. - Eu nem tava querendo descer, mas minhas pernas já estão doendo. - É as minhas também – Ela alisou as próprias pernas lentamente por um tempo e olhou para ele sorrindo carinhosamente – Dormiu bem? - Sim – Devolveu o sorriso – só to preocupado de dormir nada durante a madrugada. - No escuro, fazendo nada, balançar do ônibus e música vão te fazer dormir rapidamente pode apostar. - Torço pra isso – Olhou para o livro no colo dela – Pra faculdade também? - Não não – Passou o livro de uma mão para a outra – precisava reler pra falar a verdade e achei essa uma boa oportunidade. “Ela parece mais séria” Pensou ele observando o jeito dela brincando com o livro. - Você tá bem Ana? - To sim – O sorriso deu lugar a um rosto mais fechado – Obrigada por se preocupar, é só minha cabeça que fica pensando numas coisas, mas logo passa. - Fique bem ok? - Vou ficar – Ela tocou o ombro dele por uns segundos num gesto de gratidão – Você é um cara legal Edu. - Você também é muito legal Ana. - Fico feliz que ache isso, sério. O silêncio de novo, o fantasma que nunca vai embora. - Você fala dormindo? - Falo? - Ruborizou inteiro – Desculpa - Se desculpando pelo que? Achei fofo. - Achou? Ela acenou com a cabeça, parecia estar se soltando de novo, mas ele não sabia mais sobre o que falar e logo ela voltou a prestar atenção no livro e ele voltou a ouvir música. - There's a lady who's sure all that glitters is gold... - começou a cantarolar quando Stairway to Heaven começou a tocar - ...and she's buying the stairway to heaven... - When she gets there she knows if the stores are all closed.... - Continuou ela sem tirar os olhos do livro - ….with a word she can get what she came for. - Você conhece Led? - Algumas músicas – Fechou o livro e olhou pra ele – gosto dessa música principalmente por ser uma das poucas músicas que não consigo interpretar...posso ouvir com você? Roubaram meu celular em Santiago e agora deu vontade de ouvir. - Claro – Puxou o fone do ouvido direito e entregou a ela que se aproximou mais dele quase aproximando a cabeça do ombro dele e colocou o fone no ouvido, recomeçou a música e ouviram os dois em silêncio. “Perfume dela é bom” Pensou. Passaram um bom tempo ali compartilhando aquele momento em silêncio, de tempos em tempos cantarolavam juntos algumas das músicas, mas ela não demonstrava desgostar de qualquer música que viesse. Gastaram tanto nisso que só foram se ligar para o mundo ao seu redor quando o ônibus finalmente fez a parada. Já era noite e a lojinha estava aberta, tinha um senhor que parecia muito cansado do outro lado do balcão lendo alguma revista mais velha ainda, a maioria dos passageiros desceram, apenas alguns que dormiam permaneceram no ônibus. Por desconfiança ela desceu com a bolsa e ele com a mochila. - Você mora em que cidade? - Eduardo perguntou quando caminhavam lado a lado de um lado para o outro para esticar as pernas castigadas pelas horas de viagem. - Brasília e você? - Florianopolis - Longinho - Só um pouco – Se olharam e riram – Faz faculdade do que? - Engenharia Civil e você? - Letras - Adorava literatura e filosofia – coçou a cabeça olhado pra baixo – quer dizer, ainda gosto muito, mas sempre tive dificuldade. - Imaginava isso - O que quer dizer com isso? - Nada nada – Levantou os olhos de maneira irônica e deu uma risada. - Fala poxa - “Ela deve te achar um ignorante”. - Tava enchendo seu saco lesado - Agora fiquei magoado - Lesado demais – Riram de novo. - Quer voltar pro ônibus? - Viu que alguns dos passageiros já estavam entrando no ônibus. - Pode ir na frente, quero aproveitar para dar uma olhada nas estrelas, aproveitar que tem pouca luz artificial por aqui. - Vai ficar bem? Quer que eu fique aqui? - Sim e não precisa sério – Ele começou a caminhar para o ônibus – Obrigada. Ele apenas sorriu e voltou ao ônibus, sentou e ficou a observando pela janela do ônibus, andando de um lado para o outro com a cabeça inclinada pra cima observando as estrelas, agora que conseguia olhar bem para ela podia ver o quão linda era, não seria exagero dizer que era uma das mulheres mais lindas que ele já vira na vida. Foi a última a subir no ônibus, caminhou até o lado dele. - Pode sentar na janela? - Claro, mas por quê? - Faz muito frio a noite e vou levantar pra pegar a minha coberta, ai não te atrapalharia e ficaria mais fácil. - Ah ok – Pulou para o acento que ela estava usando e ela sentou no banco dele. “Droga esqueci meu casaco e não trouxe cobertor” e completou “Vai ser uma noite de merda”. - Você tá melhor Ana? - Sim – E o rosto dela realmente parecia mais leve e calmo – caminhar um pouco me fez bem, ocupar a cabeça sabe? - Concordou com a cabeça – Papai antes de se separar de mamãe e sumir no mundo costumava me levar para passear a noite, olharmos as estrelas e alguns vaga-lumes. - Meus pais também se separaram quando eu era criança – Esfregou uma mão na outra – Acho que nunca perdoei eles. - Eu perdoei – Olhava fixamente para a capa do livro – Tem coisas que simplesmente não dão certo, melhor eles terem se separados do que continuar algo que não queriam forçadamente e seria horrível crescer nesse ambiente. - É, seria. - Pois é. Silêncio quebrado apenas pelo ônibus ligando e seguindo viagem, ficaram assim por um tempo, um tentando pensar em algo para falar, mas não havia nada a ser dito aquele momento e ela foi a primeira a desistir acendendo a luz do ônibus e abrindo o livro. Ele lutou bravamente por um tempo olhando pro lado de fora, mas depois de um tempo sacou o fone de ouvido e colocou um no ouvido e ofereceu o outro a ela que aceitou o convite. Ficou ali ouvindo música e olhando a paisagem noturna, dia seguinte essa hora estaria deitado num quarto de hotel enquanto nevava do lado de fora e isso era algo muito surreal para ele. Se bem que para o dele da noite anterior estar sentado ao lado de uma brasileira ouvindo música junto a ela também pareceria bem surreal. A vida jamais fora tão surpreendente. O ônibus foi cada vez mais ficando escuro, a estrada era pouco iluminada e raramente passava um carro o que ajudava o céu a ficar extremamente estrelado, aleatório dessa vez acabou mandando Freedom 90' do George Michael. - Eu não lembro de ter colocado essa música – Disse sobressaltado. Ela riu. - Tem tanta música aqui que deve ter colocado faz tempo e até esqueceu. - Deve ser isso, mas que sem sentido. - Se tem uma coisa que aprendi nessa vida é que quase tudo tem um sentido – ainda mantinha o riso de surpresa no rosto – ou pelo menos uma razão. - Então você acredita em destino? - Não, mas tudo o que eu sou hoje é causa de escolhas minhas e de outras pessoas a minha volta sabe? - Você é toda filosófica Ana, se gostar de escrever um dia vai escrever algum livro foda com certeza. Ela corou levemente, abriu a boca para agradecer, mas no exato momento chegou o refrão da música e eles cantaram juntos tentando não gritar, mas sabendo que provavelmente estavam atrapalhando os outros passageiros. Olharam um pro outro e riram, havia um que de especial naquele momento, pelo menos para ele. Após um certo tempo, quando Freedom fora substituído por Today do Smashing Pumpkins, ela coçou os olhos lentamente e bocejou levemente cobrindo a boca. - É deu minha hora, chega de ler vou dormir – Então apagou a luz de leitura do ônibus e levantou para pegar a coberta dentro da bolsa no bagageiro superior, deitou e se cobrio virada para o corredor do ônibus. Ele se ajeitou do jeito que pode e se encolheu lentamente com as pernas dobradas, não era uma posição extremamente confortável, mas ele poderia suportar isso por uma noite. Só não sabia se poderia suportar o frio que fazia. Deveria fazer mais frio lá dentro do que do lado de fora considerando que o motorista havia deixando ar-condicionado no último, se amaldiçoou por ter esquecido de trazer a coberta, o que já havia sido um pesadelo na ida agora era a repetição de tudo na volta, mas como já havia suportado antes poderia sobreviver de novo. Demorou para cair no sono, ficou de olhos fechados pensando na vida, pensou na ex-namorada e em como as últimas semanas com ela tinham sido horríveis, pensou na faculdade e pensou no futuro. Tinha medo de não ter feito as escolhas certas e de ficar sozinho no futuro. Pensou num verso de alguma música que talvez combinasse com o que ele sentia no mundo “These thoughts and the strain I am under. Be a world child, form a circle” seria do Radiohead? Não sabia afirmar com certeza, quando tivesse em algum lugar com internet daria uma pesquisada nisso. No meio de algum pensamento, seja ele importante ou não, o sono veio e ganhou a briga. Ele sempre ganha. Como se pressentisse que ele tinha dormido ela acordou lentamente primeiramente olhando o teto escuro do ônibus, a pouca luminosidade que havia vinha dos postes que passavam rapidamente pela janela do ônibus, ela se ajeitou no banco e virou para o lado da janela e o viu deitado encolhido pelo frio. Sorriu levemente e revirou os olhos, virou a coberta de lado, levantando os pés na poltrona para que ficasse toda coberta e jogou o outro lado sobre ele. Não poderia deixar ele passando frio entende? A madrugada chegará rápido, os dois nem chegaram a ver quando o ônibus fez uma pequena parada para os motoristas pudessem fazer a troca e nem muito menos viram a senhora que passara mal fazendo com que ficasse boa parte da madruga indo ao banheiro, estavam presos demais em seus mundos e nos próprios sonhos para se preocuparem com o mundo ao redor. Ele acordou algum tempo antes do nascer do sol, o relogio do iPod marcava cinco e vinte da manha, no inverno no Chile costumava amanhecer entre as oito ou nove da manha, mesmo estando acordado ele mantivera os olhos fechados, ficou um tempo perdido pensando o porquê de sua cama balançar tanto, logo lembrou de onde estava e quase riu de sua estupidez, ainda de olhos fechados ajeitou os ombros e finalmente notou a coberta. Primeiramente ele estranhou e logo depois levemente a puxou para ver se suas suspeitas sobre de quem era a coberta se confirmava e algo a frente dele segurou a coberta, então lentamente abriu os olhos e esperou as púpilas se acostumarem ao escuro para tentar enxergar algo, mas nem precisou esperar pois poucos segundos após isso a respiração dela tocou a ponta do seu nariz, buço e boca. Primeiro reflexo foi o de susto, estariam tão perto assim um do outro? Ele tentou ir um pouco para trás, mas ao fazer isso acabou puxando um pouco a coberta do lado dela e teve que ficar naquela posição mesmo, sentiu o rosto corar cada vez mais que a respiração dela tocava seu rosto. - Tá acordado? - Sussurrou ela, a voz dela perto somado a respiração tocando o rosto dele o fez arrepiar levemente. - Sim, como sabe? - Sua respiração diminuiu – Girou os ombros se arrumando no banco e completou – e começou a se mexer. - Desculpa se te acordei, sério - Eu já tava acordada, não to conseguindo dormir direto só cochilar. - É, dormir nesses bancos é horrível. - Nem me fale. Fechou os olhos e ficou em silêncio apenas sentindo a respiração dela tocando seu rosto, então de repente ela encostou a testa dela na dele, o susto foi tamanho que além de arregalar os olhos deixara escapar todo o ar que tinha nos pulmões. Estavam tão próximos que ele pode sentir o sorriso se formando no rosto dele. - Te assustei? - Só um pouco - Um pouco - Um pouco é? - Riu baixo - Para de rir poxa. - Desculpa. Sentiu ela fechando os olhos e fizera o mesmo, o coração que havia acelerado na hora do susto não diminuíra o ritmo por conta da aproximação dela e ele achava que mesmo que ela se afastasse demoraria longos minutos para que voltasse ao batimento normal. “Ainda bem que não tenho arritmia” foi o primeiro pensamento que passou pela cabeça dele e foi algo tão estranho e inesperado que ele começará a rir. - O que foi? - Perguntou ela franzindo a testa, mas mantendo os olhos fechados – tá tudo bem? - Estou, só tava pensando numa coisa - No que? - Deixa pra lá sério é besteira. - Se você diz – Deu de ombros e voltou a ficar em silêncio. Ele nunca soube responder se foi ele ou se fora ela que avançou primeiro, sua memória sempre falhava nesse momento, mas lembrava perfeitamente do momento em que os lábios dela se juntaram ao dele e a sensação de paz e felicidade que o preenchera por inteiro, mantivera os olhos fechados por todo o momento e tinha a sensação que ela também. Como não poderia ser diferente houve outros e ficaram um bom tempo ali, mas isso não interessa a mim e nem muito menos a você, só interessa aos dois. Era o momento deles. Quando enfim acordou ela ainda dormia, estavam parados em Santiago e a bexiga dele estava estourando de apertada. Pensou em acordar ela, mas não achou que deveria, não havia motivo para isso e levantou tentando não acordá-la, o fato de ela estar com os pés em cima do banco o ajudou muito nisso e conseguiu passar sem precisar encostar nela. Foi em direção ao banheiro, o mesmo que a senhora havia namorado por algumas horas antese mesmo com o cheiro insuportavelmente ruim conseguiu usar o banheiro respirando o mínimo possível e pela boca. Boca, ele tocou os lábios lentamente enquanto apertava a descarga com a outra mão, pensou no que havia ocorrido no meio da madrugada e até se perguntou se não estivera sonhando, mas ele com o dedo limpou um pouco do gloss dela que ficara na sua boca. É definitivamente não fora um sonho. Saiu do banheiro junto com uma sensação de alívio imaginável e trancou o inferno atrás dele, voltou ao acento e antes de voltar ao seu lugar ficou observando o rosto dela dormindo, demonstrava uma calma e paz inimaginável e ele não conseguia não sorri vendo ela dormir daquela maneira, voltou ao seu lugar tomando muito cuidado para não acabar com esse momento de paz dela e voltou a se deitar olhando para o lado de fora, quando o ônibus partiu em direção a Chillan ele perdeu um tempo observando Santiago e a cordilheira que agora se desenhava no horizonte, bela, imponente e única. Como a mulher a seu lado. Passada a dor na bexiga agora era a vez do estômago reclamar e para calar a boca dele definitivamente ele abriu a mochila e pegou outro sanduíche e a latinha de refrigerante que sobrará, tentou abrir a lata sem fazer muito barulho e passado o estralo Ana nem se mexeu, sorriu levemente observando enquanto suas costas mexiam levemente por conta da respiração dela. Almoçou rapidamente guardando o lixo dentro da mochila, tomou muito cuidado para esvaziar a latinha para ela não vazar liquido e sujar as poucas roupas que tinha ali dentro, primeira coisa que faria em Chillan, além de tomar um banho quente, seria ir numa loja comprar mais roupas, torcia para que coubessem todas na mochila pois senão teria que arrumar uma mala. Só agora pensará o quanto imbecil era a ideia de ficar meses em outro país e só levar poucos pares de roupa. Acabou se encostando vendo a paisagem que agora era completamente diferente a do dia anterior, o Pacifico agora sumira e pela janela dele podia ver a Cordilheira e observando ela, somado ao fato de ter acabado de comer algo e do balançar do ônibus ele acabou dormindo novamente. Tempo depois acabou acordando por um tempo, naquele pequeno flash que nós temos de realidade antes de depois cair de novo no sonho, como uma respiração fora d'água antes de mergulhar novamente e nesse flash ele virou e a viu acordada segurando o livro com uma enquanto comia um sanduíche com a outra, mesmo atenta ao livro ela virou o rosto quando ele se virou e sorriu para ele antes que ele caísse no sono de novo. Dormirá tanto que quando ela o cutucou para acordá-lo pareceu que haviam passado décadas desde a hora em que almoçará e aquele momento. - Acorda Edu, chegamos. - Já? - Sim, você dormiu a viagem toda. - Caralho. Abriu os olhos e ela estava em pé na frente com a bolsa já nos ombros, a expressão dela estava diferente, nem séria, nem triste, nem brava, nem muito menos feliz. Ela parecia estar num misto de sentimentos, em dúvida sobre algo, quando se assegurou que ele estava acordado ela simplesmente disse. - Vou lá embaixo pegar minha mala – O sorriso que ela abrirá não fora o suficiente para quebrar a expressão enigmática do rosto dela. - Ok – Se espreguiçou enquanto ela virava as costas e descia do ônibus. As costas dele eram quase que inexistentes, esticou ela o máximo que pode pelo espaço e então puxou o banco para frente de novo, achou que ao levantar e sair daquele ônibus iria lhe dar uma sensação de alívio e alegria, mas ao contrário disso havia ali um peso em seu peito, como se ele fosse deixar algo de importante ali. Pegou a mochila e a colocou nas costas, olhou em volta e constatou que era o último ali, essa sensação de solidão agravou mais ainda o aperto no peito e ele saiu de lá lentamente, antes de descer a escada ainda dera uma olhada para as duas poltronas vazias. Ao descer do ônibus virou e viu Ana de costas na fila para pegar a mala dela, agradeceu aos motoristas pela viagem e então procurou um lixo para jogar o lixo da mochila fora, perdeu vários minutos procurando um lixo e quando voltou para na frente do ônibus teve tempo de ver Ana caminhando lentamente com a mala em direção a saída da rodoviária para atravessar a rua e pegar o Táxi no outro quarteirão. - Ei Ana espere. Ela parou e virou lentamente e o encarou com um sorriso no rosto. - Edu, desculpa é que o Táxi que eu encomendei já tava me esperando. - Tudo bem – Ele olhou para o outro lado da rua e tinha um taxista barbudo encostado no capô do carro esperando por ela. - Tenho que te falar uma coisa. - O que? Ele ficou um tempo parado, jogando o peso do corpo dum pé para o outro e com o coração acelerando, começou a falar duas vezes, mas nas duas vezes a voz sumira e na terceira tentativa. - Eu te amo. O sorriso dela não se fechará totalmente, ele apenas ficará um sorriso mais sério e ela abaixou a cabela lentamente como se já esperava por isso e pensasse no que falar. - Não Edu, você não me ama – Essas palavras o pegaram totalmente de surpresa – você quer me amar, você espera que eu preencha o vazio que sua ex deixou em você – ela parou um tempo para pensar – tá que toda relação é alguém querendo que outro alguém preencha um vazio dentro dele, mas nesse caso ou você não amava sua ex de verdade ou você não me ama de verdade e considerando que você a conheceu por mais tempo eu acredito na segunda opção. - Mas você não me ama? - Quando conseguiu finalmente falar essa foi a primeira coisa que saiu da boca dele, gaguejado e baixo, e completou com outra pergunta – E ontem a noite? - Ontem a noite foi um momento especial e único na minha vida, mas não é assim que o mundo funciona Edu, pelo menos o mundo real, eu o beijei porque te achei um rapaz legal, bom e que precisava de um carinho – um sorriso de felicidade misturado com alegria surgiu na boca dela enquanto ela fechava os olhos – igual eu precisava, mas não é assim que o mundo funciona Edu, pelo menos o mundo real, você achou que dividiríamos o Táxi, iriamos pra uma das cabanas e transarianos, começaríamos a namorar e quando voltássemos pro Brasil teríamos uma relação a distancia que nos veríamos apenas algumas vezes ao ano? - Ela esperou por alguma resposta e como não houve ela apenas repetiu – Não é assim que o mundo funciona Edu e isso não funcionaria de jeito nenhum e não quero ter outra desilusão amorosa. - Era a vez dela jogar o peso do corpo de um pé para o outro – Quantas namoradas você já teve na vida? - Seis. - Viu – Ela parou olhando para ele – Não importa o momento que vocês passaram juntos, não importa o quão bom foi estar com a pessoa, não importa o quanto você algum dia já as amou, no fim só fazem parte de um número e aposto que quando pensam nelas a primeira memória que vem são as memórias de quando as coisas começaram a dar errado e as memórias que antes eram boas e maravilhosas acabam perdendo a força – Fez uma pausa para tomar ar – Eu seria sua sétima e você seria meu quarto e eu não quero isso para mim e nem muito menos para vocês, eu quero ser pelo menos para alguém uma, uma memória boa, uma memória feliz e por mais que agora eu esteja te fazendo mal falando tudo isso acho que não será suficientemente ruim para apagar tudo, ainda mais se foi tão maravilhoso ao ponto de você dizer que me ama e sorriu me olhando dormir – Ele ficou surpreso e ela apenas sorriu – Eu quero ser uma Edu, uma boa lembrança para você, eu não quero ver mais uma pessoa na qual diz que eu faço bem esquecendo de tudo o que passamos só por não der certo e não vai dar certo, namoro a distância e para adolescentes, que podem se dar ao privilegio de sonhar, eu e você já fomos amarrados ao chão e já somos adultos, não podemos nos apegar a essas coisas e espero que respeite minha opinião – Ele apenas concordou com a cabeça – Eu sei que você provavelmente vai ficar triste e talvez até me odiar nas próximas semanas, mas espero que você compreenda o que eu tentei te dizer, eu sei que quando você contar essa história para seus amigos alguns não acreditarão e outros apenas vão falar de como eu te usei, me chamar de vadia, falar que brinquei seu coração. Mas espero que algum dia você me compreenda. - Não vou deixar falarem isso de você - Mesmo? - Ele ficou quieto – Você é um bom rapaz Edu, vai encontrar uma mulher um dia que vai ter tempo o suficiente para te conhecer e te amar totalmente, eu não te conheço e você muito menos me conhece – Ela virou as costas e começou a ir em direção a calçada então parou subitamente, virou e olhou para ele de novo – Eu nunca mais conseguirei entrar num ônibus de viagem sem pensar em você e sorrir pela nostalgia das trinta horas maravilhosas que passei ao seu lado. - Eu também – Eles então trocaram o último sorriso – Nos veremos de novo? - Acho difícil, a estação é muito grande, mas talvez aconteça, se me ver não se contenha e venha falar comigo ok? - Ele acenou com a cabeça – Bom qualquer coisa adeus Edu. - Adeus Ana. O Sinal fechou e ela começou a atravessar a rua ao chegar do outro lado ela com a ajuda do taxista colocou a mala no porta-malas e antes de entrar no carro ela acenou para ele que retribuiu o aceno e observou quando o carro sumiu virando numa esquina, ficou um tempo olhando paralisado para a esquina que o carro sumirá, o aperto no peito de tristeza estava ali, mas era diferente do aperto do peito da noite que terminará com a ex, não havia remorso é claro, mas havia duas coisas que não existiam antes. Havia compaixão e zelo, virou-se para dar uma última olhada nos ônibus de viagem e ela tinha razão, jamais conseguiria viajar sem lembrar dela e o mais importante, havia guardado com ele finalmente uma memória feliz de alguém, uma memória que nunca mudaria ou se apagaria. Ajeitou a mochila nos ombros, por mais que o peito estivesse apertado e a tristeza tivesse ali ele ainda mantinha o último sorriso que será a ela no rosto, colocou a mão nos bolsos, começou a cantarolar alguma música aleatória e seguiu seu rumo. Gustavo Cassiano Franqueira 27/01/2014 10/02/2014